A velha escola nova

Na segunda-feira fui levar o meu irmão ao primeiro dia de escola. A mesma escola onde andei, do 5º ao 9º ano de escolaridade. Está completamente mudada, ou melhor, é outra. A "anterior" era provisória desde 1975, portanto, já o era quando a minha mãe lá frequentou o então chamado "ciclo". Nesse aspecto, a cidade de Setúbal era especial por ser a única do país que albergava duas escolas do ensino básico em estado provisório há várias décadas (esta de que vos falo e a Ana de Castro Osório no bairro da Bela Vista).

A Escola Básica 2, 3 Luísa Todi é hoje composta por 3 pavilhões (estando apenas 2 a funcionar de momento) e um pavilhão gimno-desportivo. Exceptuando este último (que já lá existia) o resto foi eregido do zero pois, todo o complexo escolar funcionava em piso térreo com corredores labirinticos de telhas toscas e partidas que impossibilitavam a protecção às intempéries no Inverno, e que pecavam pela falta de sombra no Verão.

Lembro-me que na altura em que lá andei, a Luísa Todi era um workshop de criminosos. Muito antes do fenómeno "bullying" ser mediatizado por chegar às únicas áreas urbanas que interessam à comunicação social (Lisboa e Porto), ali isso era o prato do dia. Em miúdo fui assaltado/ameaçado algumas vezes e, todos os dias, sabia-se de pelo menos um caso violento dentro do recinto escolar. Havia uma hierarquia de tipos mais velhos, maioritariamente de raça africana ou etnia cigana que comandavam certos corredores e passagens da escola. Muitas vezes as extorções não iam além dos 20 ou 50 escudos mas, apenas porque não nos arriscávamos a levar mais dinheiro. Como não haviam telemóveis, os bonés de marca eram o artigo mais apetecível entre aqueles pequenos bandidos. Uma vez roubaram-me o meu, da Adidas ou Nike, não me recordo. Recordo sim que tinha custado 4 contos e que passaram a figurar noutra cabeça que não a minha. Mas claro que, ao pé de bonês e moedas de 50 escudos, o caso do aluno que esfaqueou a namorada na rua não se compara.

Podia também falar-vos duma colega de turma que tinha relações sexuais com um vizinho do prédio à frente da escola, que depois saltava a rede para nos contar o que fazia com ela. Há que sublinhar que, nessa altura não tinhamos mais de 12 anos e se, as descrições dadas pelo individuo não eram apropriadas à minha idade, o que fazia com a rapariga não era apropriado a idade alguma. Ela parecia gostar.

"Dá-me o telemóvel já!". O que eu me ri com esse caso (e com a pseudo gravidade da situação)... Quando nesta escola vi uma professora em lágrimas ser apalpada da cabeça aos pés por miúdos que tinham idade para serem seus filhos...

Por esta altura fumei o meu primeiro cigarro e vi muito charro ser enrolado. Também me comecei a comportar de forma menos controlada nas aulas e a dar mais importância ao que se passava "lá fora". O que me valeu (e o que valeu a alguns amigos) foi a minha (nossa) integridade enquanto pessoa(s). Se tivéssemos absorvido todos os estímulos que aquele ambiente podre nos direccionava, hoje seríamos seres desprezíveis, tal como alguns se tornaram.

Foi por isso, com algum receio que soube que o meu irmão ia frequentar esta escola. Fiquei feliz por estar novinha em folha mas, logo pensei que, as condições sociais das pessoas que habitam os bairros circundantes não mudaram nos últimos anos e que o crime violento tem estado numa escalada terrível rumo ao cume da anarquia. A única coisa que me fez descansar, foi ver os pequenos homenzinhos e mulherzinhas armados em popstars e em morangos com açucar. Parece que agora são todos muito maus mas a fingir e que a boa imagem é mais importante que a quantidade de facas no bolso. Valha-nos isso.

publicado por Mário às 22:43 | link | comentar | partilhar