Os meus colegas internacionais

De manhã, não havia trabalho p'ra mim e o chefe mandou-me para o "desemprego" (que é um antigo refeitório agora transformado em mega-salão de convívio para onde somos enviados quando não há nada para fazer). Devo confessar que, é muito raro não haver trabalho para nós - mecânicos de bordo - e, por isso, encarei a coisa de bom grado.

 

Quando lá cheguei, estava um colega na mesma situação que eu (o Ruslan) que me desafiou para uma partida de xadrez. Enquanto jogávamos, fomos conversando...

Ruslan é russo, da Sibéria. Nasceu em Omsk, a sétima cidade mais populacional da Federação Russa (1 milhão e 300 mil pessoas), que fica a escassos quilómetros da fronteira com o Casaquistão e a 2700 kms de Moscovo.

Confessou-me que gosta do Putin e que este vale por 3 Yeltsins. Que fugiu à guerra da Tchechénia e que veio para Lisboa numa viagem que demorou 2 semanas, entre comboios, autocarros e boleias. (É nestas alturas que reparo o quão desinteressante é a minha vida).

 

Eram nove e meia quando o chefe foi ao "desemprego" dar a triste notícia de que nos tinha arranjado trabalho: montar as brecas do molinete de um petroleiro na doca 31. Traduzindo: trabalho de merda.

Nesse navio, eu e o Ruslan arranjámos um apêndice. Um "crew member" que se dizia responsável pelo convés e que, por isso, teria de observar o nosso desempenho. E quando digo observar, entenda-se: "desatar aos berros quando as coisas não eram feitas da forma que ele costuma fazer". Ainda o mandei para o órgão reprodutor masculino umas vezes, antes dele dizer "vai tu" com um sorriso sacana: era indiano, de Goa! Percebia pouco português mas o vernáculo sabia-o todo, o cabrão.

Depois de alguma converseta, disse-me que o passaporte goense/português dava-lhe jeito porque podia permanecer mais tempo em certos países europeus e que, pensava mudar-se para Portugal daqui a uns anos. Perguntou-me então qual o salário médio de um metalúrgico. Respondi-lhe e ele riu-se:

- C'mon... Are you joking?

- Não pá, o salário médio anda à volta dos 700/800 euros mensais, a menos que trabalhes para um empreiteiro. Aí ganhas mais, mas não é fixo.

Senti-me uma espécie de Sá Fernandes (a lixar a imagem de Portugal) misturado com um José Pinto Coelho (não venhas para cá!). Mas só disse a verdade e essa, é a sincera publicidade.

 

No fim da jorna, ofereceu-nos (a mim e ao Ruslan) uma coca-cola gelada e desafiou-me (toda a gente me desafia) para um joguito de ping-pong num compartimento do navio que nem sabia que existia.

Perdi mas ripostei de peito inchado: "Havemos de jogar xadrez. Aqui o siberiano levou um tareão..."

 

Em 8 horas, a viagem que fiz:

 

 

Qual Marco Pólo, qual Magalhães...

 

publicado por Mário às 21:05 | link | comentar | partilhar