Desumanidade

Depois de ter tido uma reunião com os chefes de produção sobre a minha presumível ascensão na carreira, e depois de ter pensado no que foi discutido, tornou-se (mais uma vez) clarividente que, vivo num mundo onde o bem-estar humano é relegado para segundo plano, quando confrontado com as vontades das grandes corporações.

Não basta ter de passar as 8 horas diárias num dos ambientes de trabalho mais perigosos do mundo, como ainda me é exigida disponibilidade sempre que a empresa entender. A pressão a que estou sujeito é exercida de forma descarada e às claras. Se não "fizer" horas extra expediente, não subo na hierarquia. Assim, sem espinhas.
Entre segunda e sexta-feira trabalhei 72 horas e, por vezes, dormi 3 horas entre duas jornadas de "luta". Já seria duro se fosse escriturário, mas sou mecânico naval. 
Reparar petroleiros de grande porte significa - entre tantas outras coisas - subir/descer centenas de degraus por dia, andar pendurado em abismos metálicos, carregar ferramentas de peso monstruoso aos ombros, martelar ferro com marretas de 10 kgs e respirar gases tóxicos, e se alguma destas tarefas correr mal os danos são graves, muitas vezes irreparáveis. O corpo tem um limite e o meu é atingido quando me tento pentear e não consigo levantar os braços, ou quando tenho de gastar uma caixa de pensos rápidos nos pés para calçar os ténis.
A revolta surge quando digo que não posso ficar a "prolongar" e ainda me é perguntado porquê, como se a minha obrigação contratual exigisse para além do meu suor, o meu sangue; quando ao fim do mês, depois das despesas pagas começo a contar os dias para o final do mês seguinte e, ter de encarar diariamente os engenheiros do aço de capacete branco a pavonearem-se nos seus topos de gama oferecidos pela empresa e renovados a cada ano; quando sei que um trabalho que faço em 2 horas custa centenas de euros ao armador do navio e no fim sobra um centésimo para mim; quando por 8 minutos de atraso em quase 1 ano de trabalho não sou promovido e, por isso, não ganho mais 100 euros/mês; quando sei que um colega meu foi advertido verbalmente por ter estado de baixa com o seguinte discurso: "Nesta empresa, precisamos das pessoas aqui, não em casa".
Por tudo isto é compreensível que, desde a década de 70 que a empresa onde trabalho seja um dos maiores pólos de militância comunista a nível nacional. Homens que rumaram ao litoral para matar a fome, depararam-se com uma escravatura laboral nada em conforme com as ideias de contemporaneidade industrial. Os sindicatos foram em certa medida, uma forma dos trabalhadores verem ressarcidas algumas compensações monetárias pelo desgaste a que estavam sujeitos, e também uma forma da empresa "dar um chouriço a quem lhes dá um porco", mas o principal problema, quanto a mim, nunca foi esse. Bastava um pouco de bom senso e alguma humanidade inter-relacional. 
No fundo, não me importava de viver com pouco, se esse pouco não fosse cobrado ao som de cornetas tribais e a toque de chibatada.

publicado por Mário às 19:56 | link | comentar | partilhar