Para a minha sobrinha

Olhar para ti é ver o futuro num espelho. É sentir que o que já passou ser-te-á novidade, a cada momento uma descoberta, uma reacção daquelas, novas, como se observasses pela primeira vez, o que de facto nunca viste. Nunca sentiste, nunca sequer pensaste que poderias sentir. É em ti que reside a esperança, e é a ti que te será atribuída a responsabilidade de transformar o que nunca transformámos. Vontade. Ficamo-nos sempre pela vontade de ter vontade de fazer mas raras são as vezes que fazemos, e quando o mal está feito, foi sem vontade, claro. Sem o propósito de, sem a intenção de, com a negligência de. Todos nós.

Olhar para ti é ver a esperança, a utopia de que tudo seria perfeito, se não te tornasses no que somos, se o teu tal futuro não fosse um espelho do nosso. Desconsola-me saber que as novidades que estão por vir serão descobertas exactamente da mesma forma que nós descobrimos. A errada. É humano, bem sei.

Olhar para ti, consciente da inconsciência que nos move, é acima de tudo, irónico. Tão frágil, mas tão certa. Por ainda não teres sido envenenada pelo arsénico que respiramos.

Olhar para ti é, no meio deste desespero, reconfortante.
publicado por Mário às 13:20 | link | comentar | partilhar